Gilberto Velho e a Mostra Internacional do Filme Etnográfico
15 de maio de 2012Em 14 de abril de 2012, faleceu Gilberto Velho. Uma comoção no mundo acadêmico, uma ausência afetiva repentina, uma perda enorme para a vida intelectual e para o pensamento social brasileiro. Um cientista social que se dedicou a pensar a cidade, o mundo à sua volta, a formular teorias para destrinchar esse emaranhado urbano em que vivemos, uma referência nacional e internacional para esse campo, iniciando os estudos de Antropologia Urbana. Muito já tem sido dito sobre a importância e a originalidade da obra de Gilberto Velho na lembrança dos colegas e discípulos: pioneira, antenada, criativa, experimental, contemporânea – ver os escritos recentes de Luiz Fernando Dias Duarte, Hermano Vianna, Karina Kushinir, Yvonne Maggie. (ver página do PPGAS). Também têm sido destacadas as suas características particulares de generosidade intelectual, professor dedicado, formador de discípulos, abertura ao diálogo e ao risco no estudo de novos temas, diplomacia para lidar com as tensões, humor particular – tudo isso mesclado a um modo de ser também rígido, metódico, singular, características que tanto o definiam.
Estamos lembrando o professor e grande amigo hoje, 15 de maio, dia de seu aniversário. Tivemos um último encontro muito especial com Gilberto Velho em novembro de 2011, dia 18, durante a 15ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico. Convidei-o para conosco fazer uma homenagem à escritora, poeta, folclorista, Lélia Coelho Frota que, dentre outras muitas atividades, foi ex-diretora do Instituto Nacional do Folclore – hoje CNFCP, instituição que abriga nosso Festival desde 1993.
Assim me respondeu Gilberto – “Estimada Patrícia, aceito com satisfação. Aguardo detalhes. Beijos, Gilberto Velho.”
Em poucos dias o texto estava pronto, publicado em nosso catálogo, com o título: “Pioneira e Mediadora”. (catálogo). E na data e hora combinada estava Gilberto Velho presente, no cinema do Museu da República, onde seria realizada a nossa homenagem. Exibimos um audiovisual afetivo, produzido pelo CNFCP, para reverenciá-la. Em seguida um curta-metragem sobre o artista Julio Martins, dirigido por Carlos Augusto Calil (1979) e o documentário Chico Antonio, o herói com caráter, de Eduardo Escorel e Marco Alberz, ambos com colaboração de Lélia. Contamos com a participação, na sessão, da antropóloga Lygia Segalla, grande incentivadora do Festival, professora da UFF e presidente da Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro, parceira da Mostra. Na sequência a intervenção de Gilberto Velho, que foi certeira. Com humanismo e brilhantismo intelectual, destacou a importância de Lélia especialmente no seu trânsito entre os antropólogos das correntes mais modernas com as tradições dos estudos de folclore e cultura popular notando, nesse contexto, o campo da antropologia visual.
Lélia Coelho Frota “…foi capaz, assim, de criar um espaço novo para pesquisa e reflexão em que se uniam antropólogos, folcloristas e historiadores, com suas variadas especializações, como a etnomusicologia e a antropologia visual. Nesse processo foi uma preciosa interlocutora de várias gerações de intelectuais, incluindo-se jovens em início de carreira. Conquistou a admiração e amizade de muitos através de seu dinamismo e liderança.”
Aqui exibimos algumas imagens desse nosso emocionante encontro com Gilberto Velho. Tratava-se de uma homenagem mas não sabíamos que seria também uma despedida.

Gilberto parecia estar com a saúde frágil, com o andar lento, cuidadoso, merecendo mais atenção do que já demandava, mas se transformava ao falar, ao se pronunciar intelectualmente, com a força e objetividade de seu pensamento. Notamos isso e comentamos, na data, com vários de seus alunos e amigos ali presentes. Ficamos muito felizes com aquele encontro. Celebramos, com um brinde, a sua presença e aquele momento, numa sala do segundo andar do Museu da República.
Lembro-me de Gilberto em várias outras exibições da Mostra, desde a primeira edição, um grande incentivador e estimulante presença. Era também conselheiro do Museu de Folclore Edison Carneiro, onde tinha muitos amigos e admiradores, o que o fazia transitar naquele espaço com muita intimidade, sempre reverenciado.
Foi com a orientação de Gilberto Velho que fiz minha dissertação de mestrado no PPGAS/Museu Nacional “Hoje é o dia do Santos Reis”, um estudo sobre as Folias de Reis no Rio de Janeiro – quando me interessei pelo uso da imagem na antropologia e investi nos estudos de antropologia visual, ainda nos anos 80. Foi com Gilberto que, no PPGAS, pela primeira vez, me foi permitido usar parte de meu tempo disponível na apresentação do trabalho final para exibir um vídeo sobre a pesquisa.
Como disse Hermano Vianna em resposta a mim, em seu blog, quando destaquei a qualidade de Gilberto Velho em abrir novas trilhas e caminhos nos estudos de antropologia “… sim, muitos caminhos, inclusive a antropologia visual, não foi? Ele sempre incentivou muito os orientandos e alunos que queriam ir além dos textos – precisamos prosseguir sem perder o espírito experimental da obra de Gilberto!”
Viva Gilberto Velho. Parabéns sempre. Carinho e admiração.
Patrícia Monte-Mór






